rebanho paralítico e a traça como pensamento

Posted on 18/03/2011 por

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 por, marcus novaes

campinas, aula de 12 de março de 2011, sábado 

Vivemos em um grande rebanho idealizado e marcado por discursos de poder e saber que asseguram suas verdades produzidas e as atiram sobre nós como uma malha invisível (para as ovelhas, não para os predadores), a qual segue sendo tecida há séculos.

O tempo a tornou pesada e esta mantém o rebanho cada vez mais paralisado, sob um controle que atua diretamente sobre o corpo de cada indivíduo (anatomopolítica) e sobre toda a espécie (biopolítica). Embora os fios destes discursos que a constituem sejam frágeis, estes se sobrepõem tirando nossa mobilidade, sufocando nossas vidas.

Ovelha a ovelha, os tecelões destes fios asseguram a sua verdade imprimindo uma marca física e moral imposta através da modulação de mentes e de corpos, processo tão forte, que atravessa corpos e muros, não pede para entrar. Ao contrário, já é pressuposta e até convidada, esperada.

Esta marca “natural”, forjada à custa da liberdade e da soberania do indivíduo, implica um assujeitamento para manter todos dóceis e úteis, levando-nos a compor um triste rebanho de governados.

No entanto, o rebanho ainda comporta os anômalos, os quais, em sua vontade de vida para além da projetada pela Ideia, por Deus, e/ou pela Mídia, se mantêm nas fronteiras, nas falhas e esburacam os fios desta malha, lançando traças que se colocam como pensamentos e atacam os fios dos discursos. Provocam buracos que permitem  que nem todos se sufoquem, garantindo assim a oxigenação necessária para os cérebros exercitarem o pensar.

Nietzsche nos provoca: “Toda verdade é simples! Não seria isto uma dupla mentira? ”[1].  Como toda verdade tem a pretensão de abarcar tudo, remeter ao todo, os anômalos precisam carregar punhados de traças consigo e lançá-las em toda esta malha, afim de um pouco mais de ar, de liberdade.

Edmilson nos pergunta: Se o pensamento é incerto, seria possível haver na escola, sendo esta o local da propagação de certezas, algum espaço para ele?

 Talvez nós educadores possamos fomentá-lo de algum modo, mas, isto dependerá de um contínuo trabalho sobre si, da recuperação de nossa soberania, de jogar traças sobre os fios da pesada malha que nos prende, para tecer uma nova vida, mais livre, mais ventilada, com espaço para a entrada do desejo e efetivação dos acontecimentos.


[1] Niezsche, “Crepúsculo dos Ídolos, ou como filosofar com o martelo”.

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