pensamentos despretensiosos

Posted on 22/03/2012 por

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cala. consente o silêncio.

ouve o murmúrio.

inefável mundo dos sentidos.

“homens de responsabilidade”, como eram para nietzsche os filósofos, é o que deveríamos ser diante da vida, incluída nela a profissão, sobretudo, quando se trata do ofício de ensinar. nossa tarefa seria, portanto, pensar, inventar palavras e ações, produzir acontecimentos, por pequenos que fossem, contudo, capazes de revolucionar, de romper a modorra de um cotidiano anestesiado pelo efeito da repetição.

“a vida como ela é” – aqui e agora – deveríamos esculpi-la cotidianamente como obra de arte, com capricho, com cautela, com coragem e irmos, singularmente, educando a nossa sensibilidade para estar nela em outra sintonia e com outra intensidade.

se abandonássemos o afã de reconhecer sempre um sentido para tudo poderíamos perceber que a falta de sentido é o que dá sentido. o sal da vida, no arrebatamento da surpresa. se assim fosse talvez pudéssemos compor outra dinâmica para a nossa existência então liberta da necessidade de tudo entender e de tudo explicar.

sem vistas à objetividade, ao conforto das respostas, à submissão inconsequente às verdades das palavras, também escritas, estaríamos mais leves e vulneráveis aos encontros, inusitados, potentes e plenos de vida.   leríamos para produzir outra escritura e não para entender e reproduzir o lido; ouviríamos para produzir novos sentidos, para assim vivermos em nós experiências, únicas, intransferíveis e singulares. os conteúdos da vida, sem desconsideração aos desprazeres, animam e alimentam nossa potência criadora.

morte às narrativas homogeinizadoras e unificadoras. não se trata mais de pensarmos que a mudança, seja lá qual for, deva se dar antes no todo, na sociedade ou nas instituições. o deslocamento se dá no pequeno, no local, em cada um antes de tudo. começa, e não termina, em nós, individualmente. dá-se no corpo, nos sentidos físicos, no pensamento, nas ações. isto tudo, na medida em que agimos, produz efeitos que podem representar o movimento, o fluxo de outros corpos, não mais “acostumados”. já se disse que na zona de conforto habita a imobilidade, a inércia, a tediosa reprodução do mesmo que esteve e está a serviço da morte em vida. nos encontros as boas misturas, características das paixões alegres, alimentam e aumentam a potência de vida de cada indivíduo.

escapar ao controle e produzir-se singular. em minority report, filme de 2002 dirigido por steven spielberg, quem escapa dele é quem não tem olhos. dá a pensar …  talvez seja importante não ter olhos, sobretudo, quando demasiadamente acostumados , contaminados pelo hábito e por legendas inequívocas. do mesmo modo seria importante deixar de ouvir os sons recalcitrantes do “coro dos descontentes” e saudosistas que apelam em tom de lamúria e súplica, a uma volta ao passado – tão melhor, mais justo, mais humano, mais seguro e mais saudável em comparação com os dias que correm.

dizia nietzsche: “não se tem que querer melhorar a vida porque ela é o que é”. portanto, não se tem que querer promover, como num túnel do tempo, um retorno ao “Éden”.  contudo, nós desejamos sempre fazer da vida uma cena perfeita, sobretudo moralmente: sem sombras, sem deslizes, sem embates e sem tragédias.

fomos produzidos e agimos no tempo de Cronos – passado, presente, futuro – linear, lógico e sequenciado. sob esta perspectiva se organizam e são planejadas nossas ações. sob ela transcorre também nossa existência que escorre pelos dedos, em atroz velocidade, sem nos darmos conta, mais veloz ainda quando um dia é igual a todos e todos são como um.

sobre o futuro, do alto de nossa soberba, fazemos prognósticos e profetizamos respaldados por certezas tênues de um passado idealizado que tão pobremente nos oferece referências. mente sã em corpo são e a garantia de uma existência asséptica, de sociedades e indivíduos ajustados e felizes. pá de cal sobre terra viva … desconsideração ao acaso. se nada surpreender, melhor, apaziguados estaremos. controles acionados e morte ao devir.

um mundo objetivado por discursos que dizem o que são e devem ser as coisas. um mundo entregue pronto: tudo bem esquadrinhado é o que basta para dele estarmos apartados.  um mundo sem graça, sem cor, sem interesse. passamos por ele sem qualquer emoção, como numa viagem num trem bala, ou pior. no trem, se perdemos o deleite da contemplação das paisagens ao menos ganhamos em emoção diante da surpreendente sensação de velocidade.

acreditar no mundo, como nos propõe deleuze é a nossa chance de tirarmos a cabeça fora d´água, estando nele sem estarmos submersos. é acreditar no potencial de fabricação e de fabulação do novo. significa o abandono do lugar confortável, tediosamente conhecido, onde ancoramos nossa nau que, infelizmente, nada tem de insana, para nos lançarmos, como resistentes obstinados num mundo pelo qual nos deixemos surpreender, expostos ao provisório e ao imponderável devir.

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