Há algo estranho em seu olhar

Posted on 17/12/2013 por

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Provavelmente muitos já ouviram esta afirmação ou alguma manifestação parecida, como: desconfio daquele sorriso. A leitura de uma expressão facial acompanha o julgamento do caráter de um indivíduo em conformidade a uma moralidade estabelecida por padrões de representações do comportamento humano.

‘O rosto é o espelho da alma’, a frase que seria atribuída a Cícero (106 a.C), há tempos fora transformada em provérbio ajudando a constituir uma sabedoria popular. Mas tal sabedoria, às vezes se engana quando os termos da relação que  a estabeleceram: rosto, alma e julgamento, não resultam na verdade constituída.

Quando os padrões de leitura fisiognomonicos não conseguem enunciar aquilo que deveria compor a resposta adequada a tal situação, a vida transtorna a face que passará a refratar e refletir a alma diferentemente.

Como não se almeja aqui um caminho transcendente, a alma será vista como mente, afastada de uma categoria universal, pensando a mente composta por uma multiplicidade de singularidades que a compõem e que não expressaria, em sua ligação irreversível ao corpo, nada além do que possa ser experenciado corporalmente. Mudemos a fórmula: corpo e mente, para corpo é mente, o que possibilita dizer: corpo mente. A experiência sempre singular e em devir no vivente o faz variar e, o corpo mentirá frente a verdade de sua leitura.

A face não exprime o que um saber montado sobre ela autoriza um discurso a dizer. Nem o que é exprimido pode ser representado pelo o que toma um corpo em suas múltiplas experimentações e respostas. Quando se considera a experiência além de padrões lógicos estabelecidos, as respostas alcançadas não necessariamente corresponderiam ao que o olhar busca avaliar. O olho está por demais acostumado a moldes de representação e entendimento de uma linguagem-verdade que possa ser dita.

O rosto humano se compõe de estrangeiridades que os modelos  representacionais não podem dizer o que são. Provavelmente as mesmas pessoas que estranharam um olhar ou desconfiaram de um sorriso, também foram traídos por suas leituras em outros momentos.

No filme A Caça (2012), o diretor dinamarquês Tomas Vitemberg  rompe o dogma: criança não mente. Klara, uma menina de 6 anos, acusa seu professor, Lucas, de ter-lhe mostrado seu orgão genital, fala que dispara uma sucessão de acontecimentos que transformam as relações de Lucas  com as pessoas que lhe são ou não próximas. O filme consegue transmitir bem que um acontecimento não se esgota no estado de coisas que efetua, ele continuará a influenciar outras ações, amistosas ou não.

O filme apresentaria também uma possível quebra entre duas ‘verdades’ que assombram os discursos de representação. A primeira é que criança não mente. A mentira vista como algo moralmente ruim, não se vincularia a ideia de que ser humano seria naturalmente bom e de que uma criança de 06 anos ainda não pudesse corromper sua ‘estrutura inata’ e dizer algo, que não a verdade. A segunda verdade conectada a primeira passa não só pelo que ela enuncia em palavras, mas também pelo rosto, Klara é uma criança ‘bonita e normal’, tende a exprimir seus comportamentos conforme padrões de normalidade.

Vintemberg apresenta imagens que rompem com clássicas ideias de representações, deslocando pontos de vistas e apontando a complexidade de julgamentos baseados em padrões comportamentais e morais.

O filme tem a sutileza de não apontar que Klara é uma criança má, ela apenas disse uma ‘mentita qualquer’ e, esta mentira não necessariamente determinará seu caráter e seu comportamento.

O humano se constitui diferentemente por mais que passe pelas instituições que tentem lhe assegurar um caráter. Ele aprenderá atuar conforme as regras e padrões presentes, o que não quer dizer que deixará de cometer desvios. Nem o rosto nem as palavras que são enunciadas conseguem exprimir todos os pensamentos que tomam a cada um. Avaliar o que alguém é parece um risco imenso, avaliar segundo códigos faciais ilegíveis é…

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